
Vénus de Milo
Para quem mora neste pedaço de mundo ocidental, Afrodite é a deusa do Amor. A estátua que a melhor representa, junto de nós , ficou o nome de Vénus de Milo. Reproduzida milhões de vezes em quadrinhos ou em estatuetas de lojas de decoração, em mármore, granito, plástico, madeira ou cera, é-nos tão familiar quanto uma mola de roupa.
Beleza
Existe algo implícito que foi construindo em nós um conceito de beleza ao longo dos anos. Algumas formas ou manifestações artísticas representam essa beleza de que falo, esse conceito. Ele vive em nós, cá dentro, mesmo que não o consigamos distinguir ou dele falar, quer seja porque nunca pensámos nisso ou apenas porque não são coisas que nos interessem. Algo “jungiano”, esse conceito instalou-se tácita e sorrateiramente e, uma dessas manifestações no povo, é a da Vénus de Milo. Vou agora contar uma coisa, em duas partes:
Primeira parte – Há uns anos, andava a pintar umas imagens de mulheres para uma série de quadros que estava a preparar. Num dos estudos que fazia, à base da linha pura, concentrei-me na expressão da cara do meu modelo, no cair do pescoço, na forma como o vestido se desenhava pelo corpo. Negligenciei um dos braços, o estudo ficou como uma boa imagem, algo que me agradava bastante. Ao passar para a tela, achei que não deveria pintar um dos braços e manter a imagem igual ao que era no estudo. Algo ali me dizia “beleza”. Usei a imagem em mais desenhos, numa montagem digital, num flyer/catálogo de exposição, no tal quadro que falo e até como capa de um disco que editei em 2008. A Vénus de Milo está aqui, produto de um subconsciente colectivo e só o notei tardiamente.
Segunda parte – Há uns anos, estava eu a entrar num café da marginal, perto de sítio onde vivo actualmente, quando sou confrontado com uma mudança de visual do pequeno espaço. Numa das paredes do café, um quadro enorme toma conta do plano. Abstracto, mecânico, indecifrável e sedutor (confesso que vou a este café, muito por causa deste quadro). Não sei quem o pintou, mas quando o vi algo me disse “beleza”. Que enigmática esta sensação. Há uns meses, descobri o porquê desse quadro falar comigo. Olhando com atenção, podemos ver lá os traços da Vénus de Milo. Quando me dei conta disso, ri-me para comigo e pensei o quanto as imagens vivem dentro das nossas cabeças que, por vezes, todas juntas, dão uma só cabeça.
Filipe Miranda
2011








